Comunicado solidariedade com o coletivo “CSOA Escárnio e maldizer”

– A repressão patriarcal do estado espanhol –

A organização do Festival Feminista do Porto pretende transmitir absoluta solidariedade com as vizinhas e os vizinhos que estavam a gerir o Centro Social Okupado Autogestionado (CSOA) Escárnio e Maldizer,  na cidade galega de Compostela. Manifestamos a nossa mais taxativa repulsa à repressão, perseguição policial, pressão política e manipulação da mídia realizada sobre a natureza do espaço e dos factos ocorridos.

O Escárnio e Maldizer era um espaço de grande benefício para a vizinhança, de grande importância desgentrificadora e constituía um ente de dinamização social e cultural, difusor de consciencialização política e democrática, de valores de respeito, solidariedade e feminismo. Um coletivo de caráter galeguista e plural. Um exemplo de autogestão vicinal e comunal.

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Mas estava localizado num edifício histórico no centro da cidade, exposto à especulação imobiliária. O despejo ocorreu no dia 30/05/2017 e nessa mesma tarde a vizinhança saiu à rua numa concentração espontânea de apoio ao CSOA, que foi brutalmente reprimido pelos anti-distúrbios (Polícia Nacional Espanhola) que o Delegado del Gobierno, Santiago Villanueva, ordenou sem mediar provocação alguma pela vizinhança, com a única justificação do  tom político anticapitalista e antipatriarcal das companheiras aí concentradas. As imagens da carga policial mostram uma brutalidade e repressão, que custa entender (ou talvez não…) e ver desde Portugal (seja de onde for). Além disso, na manifestação realizada a 10 de junho, o Corpo Nacional de Policía voltou a repetir os actos de repressão sobre as manifestantes, com mais violência ainda e criando um clima de terror nas ruas da cidade, tendo ficado desde então a vizinhança num estado de repressão policial, onde se criminalizam todas as pessoas que se solidarizam com as vítimas e com o CSOA. Uma verdadeira caça às bruxas que se tem traduzido na polícia secreta desencadear ações de perseguição indiscriminada, pois tanto abordam nas ruas quem participou nas concentrações como meras transeuntes.

Também somos conscientes da chamada Lei de Segurança Cidadã espanhola (Lei Mordaça), que tanto a ONU e a UE instou a Espanha a retirar, que dita uma lei que condiciona o exercício da cidadania, pois restringe fortemente o que as pessoas podem fazer quando se manifestam, facilitando aplicação de multas e detenções e dando proteção à polícia para agir com violência.

maxresdefaultProcurámos obter documentação sobre o ocorrido nas imagens, nos vídeos e nos próprios testemunhos das afetadas em vários meios de comunicação independentes como Praza Pública, Sermos Galiza, Galiza Contrainfo, Diário Liberdade, Galicia Confidencial, etc. além das denúncias feitas pelo sindicato CIG, Colexio de Xornalistas, Galiza Nova, Compostela Aberta (na presidência do governo da cidade) além de diversas gravações e relatos em redes sociais e também de viva voz de testemunhas diretas.

Não é difícil tirar conclusões. O encerramento do CSOA, os actos de repressão policial, a manipulação policial, política e de vários órgão de comunicação social merecem a nossa forte oposição e condenação.

Escrevemos este comunicado para informar a quem em Portugal não recebe estas informações, mas principalmente numa manifestação de sororidade com as companheiras galegas, muitas das quais foram participantes ativas e assistentes no Festival.

Enquanto organização feminista que somos, mas também como mulheres, portuguesas, brasileiras, galegas, espanholas, alemãs, apátridas –  como seres humanos – expressamos a nossa indignação perante acontecimentos tão incrivelmente absurdos, abusivos e brutais, a pouco mais de 200 km do Porto e manifestamos o nosso apoio às ações de luta que estão a ser desenvolvidas, em particular à exigência de liberdade e absolvição das detidas.  O feminismo e a solidariedade não têm fronteiras.

Mexeu com uma,  mexeu com todas
Se nos tiram espaço, multiplicamos solidariedade

11 de julho de 2017
Festival Feminista do Porto
https://festivalfeminista.wordpress.com/
@festfeminista.porto
festfeminista.porto@gmail.com

 


 

Alguma documentação:

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